"O turismo no Brasil atingiu um novo patamar”, afirma ministro Gustavo Feliciano

No Dia Mundial do Turismo, gestor da pasta destaca recordes, crédito para empresas, pesquisa nacional de demanda e impactos da IA no setor

Gustavo Feliciano, ministro do Turismo:" Com a Pesquisa Nacional de Demanda Turística, vamos entender a origem do turista, o motivo da viagem, o tempo de permanência, o padrão de gasto e a avaliação sobre infraestrutura, segurança, preços e serviços" Foto: Rizemberg / Divulgação

Por Paulo Campos

O turismo celebra neste domingo, 27 de setembro, o seu Dia Mundial do Turismo. Mais do que uma data no calendário, a efeméride representa uma oportunidade para discutir o peso de uma atividade que movimenta pessoas, negócios e economias e que vem ganhando cada vez mais espaço na agenda de desenvolvimento dos países.

A data foi instituída pela Organização Mundial do Turismo (OMT), atualmente denominada ONU Turismo, e escolhida por marcar a adoção dos estatutos da organização, em 27 de setembro de 1970. Desde então, o Dia Mundial do Turismo tornou-se referência para debater os impactos econômicos, sociais, culturais e ambientais das viagens.

Dados recentes do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês) mostram que a contribuição do setor de turismo para a economia mundial deve alcançar US$12 trilhões em 2026, o que corresponde a 9% de todo o Produto Interno Bruto. O setor ainda deve gerar 376 milhões de empregos em todo o planeta.

No Brasil, após uma pandemia  que paralisou o  setor, o turismo atravessa, nos últimos  quatro  anos,  um período de crescimento e transformação. O país tem ampliado a chegada de visitantes internacionais, recuperado o fluxo doméstico e fortalecido destinos que vão muito além dos tradicionais cartões-postais.

No dia em que o mundo comemora o turismo enquanto atividade econômica que gera emprego, renda e desenvolvimento, o ministro doTurismo, Gustavo Feliciano, em entrevista exclusiva ao Turismo do portal O TEMPO, fala sobre os avanços, as novidades e os desafios do setor nos próximos anos.

Depois de quase um ano no comando do Ministério do Turismo, qual é o seu diagnóstico sobre o setor? O que melhorou e qual foi o maior problema enfrentado até aqui? 

O turismo brasileiro vive um excepcional momento. Atingimos um novo patamar. Os recordes deixaram de ser eventos isolados e passaram a refletir uma trajetória consistente de crescimento em todas as regiões. 

Encerramos 2025 com a marca histórica de 9,2 milhões de turistas internacionais e seguimos apresentando resultados expressivos este ano. No mercado interno, a marca de 68 milhões de passageiros aéreos nos primeiros oito meses comprova que o brasileiro está viajando mais pelo próprio país. O principal avanço foi garantir ao turismo o espaço que ele realmente merece na agenda de desenvolvimento nacional. 

O setor deixou de ser tratado como um tema secundário e passou a ser enxergado como parte estratégica da agenda econômica do governo brasileiro. Avançamos na promoção dos destinos, na oferta de crédito e nos investimentos em infraestrutura. Enfrentamos um grave problema por conta das tensões geopolíticas internacionais, mas o governo brasileiro agiu rapidamente, zerando as alíquotas de PIS e Cofins sobre o QAV (querosene de aviação), buscando aliviar os custos das companhias aéreas.
O Ministério iniciou agora, em setembro, a primeira Pesquisa Nacional de Demanda Turística (PNDT), que vai ouvir cerca de 22,5 mil turistas em 50 municípios. Minas Gerais aparece com duas cidades, Belo Horizonte e Extrema. Como foi feita a escolha dessas cidades? O que o Ministério pretende descobrir com essa pesquisa que ainda não consegue enxergar?

A escolha dos destinos seguiu critérios estritamente técnicos, cruzando o Mapa do Turismo Brasileiro com o Índice Geral dos Municípios, que avalia 70 indicadores do setor. Em Minas Gerais, Belo Horizonte e Extrema foram as cidades mais bem posicionadas por esses parâmetros. 

Essa pesquisa vai nos permitir mapear toda a jornada do visitante com uma precisão que hoje não existe. Vamos entender a origem do turista, o motivo da viagem, o tempo de permanência, o padrão de gasto e a avaliação sobre infraestrutura, segurança, preços e serviços. Com esses dados em mãos, o Ministério, o governo de Minas e as prefeituras poderão tomar decisões muito mais assertivas. 

Se o estudo indicar que o turista passa pouco tempo em um destino, por exemplo, podemos criar roteiros e atrações. Todos os resultados serão disponibilizados no Observatório Nacional de Turismo Sustentável até abril de 2027. A metodologia da pesquisa também ficará disponível para que outras cidades mineiras possam realizar o levantamento.
Os recursos do Fungetur são da ordem de R$ 1,033 bilhão em 2026. Qual o principal desafio para fazer esse dinheiro chegar efetivamente aos pequenos negócios do turismo? Especifique, por favor, a situação de Minas Gerais em relação ao Fungetur.

O desafio é chegar às mãos do empreendedor. Temos realizado atendimentos técnicos para orientar grandes e pequenos empresários. Estamos rodando o país para divulgar essa política pública tão importante para o setor. Recentemente, anunciamos uma linha de crédito para os microempreendedores inscritos no Cadastro Único, que podem captar até R$ 21 mil com cobertura do Fundo de Garantia de Operações. 

Desde o início do atual governo, o Fungetur viabilizou, em Minas Gerais, 736 financiamentos, totalizando R$ 266 milhões em investimentos. O nosso desafio contínuo é fortalecer as parcerias com os bancos credenciados para simplificar o acesso ao crédito na ponta e estar presente na maior quantidade de cidades possível.
Duas cidades mineiras, Conceição do Ibitipoca e Delfinópolis, estão na disputa pelo selo “Melhores Vilas Turísticas do Mundo” em 2026. O que essa premiação da ONU Turismo traz em benefícios e visibilidade para o país?

Ter dois destinos mineiros entre os 12 indicados pelo Brasil é motivo de grande orgulho para o estado e evidencia a riqueza de Minas Gerais. Conceição de Ibitipoca e Delfinópolis representam com perfeição o que o turista moderno procura: natureza preservada, gastronomia autêntica, patrimônio cultural e uma acolhida única. 

O selo da ONU Turismo coloca esses destinos em uma vitrine internacional de altíssimo nível, atraindo a atenção de operadores globais e abrindo portas para novos investimentos. Mas o ganho mais importante está no reconhecimento de um modelo de desenvolvimento sustentável, que mantém a comunidade local no centro dos benefícios gerados pelo turismo.
Entidades como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) e o Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas (Sindepat) manifestaram forte preocupação com a extinção da escala 6x1. Como o senhor pretende convencer que o fim da escala 6x1 pode ser benéfica para o setor e que não vai aumentar os custos?

A preocupação apresentada pelas entidades do setor é legítima e faz parte do debate democrático. O turismo tem uma dinâmica operacional muito própria, uma vez que hotéis, pousadas, restaurantes, parques e atrativos funcionam justamente nos fins de semana, feriados e períodos festivos, quando o restante da economia descansa.

Por outro lado, precisamos olhar para o potencial transformador que a ampliação do tempo livre traz para o próprio setor. Trabalhadores com mais tempo para descanso e convivência familiar tornam-se consumidores em potencial do turismo doméstico, movimentando viagens curtas, a gastronomia e o lazer regional. Um eventual aumento de custo com o fim da escala 6x1 pode ser compensado por uma movimentação maior nos destinos, impulsionada por esse dia a mais de lazer.

Nas últimas semanas, a Inteligência Artificial ganhou manchetes de jornais no Brasil e no exterior. As discussões giram em torno dos riscos da tecnologia, da necessidade de regulação global e do avanço acelerado da superinteligência. Mas a IA também está mudando a maneira como o turista pesquisa, escolhe e compra uma viagem. Como o senhor considera que a IA pode impactar o turismo nos próximos anos?

A Inteligência Artificial já é uma realidade que está redefinindo a jornada do viajante e a gestão dos destinos. Ela otimiza a busca por passagens e hospedagens, permite a personalização de roteiros em tempo real e agiliza o atendimento ao cliente. 

No Ministério do Turismo, tratamos a transformação digital e a inovação como pautas transversais. Estruturamos nossas ações no Observatório Nacional de Turismo Sustentável e na estratégia dos Destinos Turísticos Inteligentes, preparando estados e municípios para incorporar novas tecnologias à gestão pública.

O Ministério do Turismo aprovou em agosto o detalhamento do Programa de Infraestrutura Turística do Plano Nacional de Turismo 2024–2027. Quais são hoje os principais gargalos de infraestrutura turística no país e como o Ministério pretende medir os resultados desses investimentos? E quais os investimentos do programa especificamente em Minas Gerais?

O nosso desafio é ampliar e modernizar a infraestrutura turística. A partir de 2027, os novos contratos deverão contar com um plano de sustentabilidade que considere também durabilidade, resiliência climática, operação e manutenção. Os resultados serão acompanhados por indicadores e relatórios semestrais.

Desde 2023 já foram concluídas 156 obras em 126 municípios mineiros, totalizando mais de R$ 99 milhões em investimentos. São intervenções que qualificam os destinos e ajudam a transformar o potencial turístico de Minas Gerais em emprego e renda.