Superexposição nas e às redes sociais traz risco para crianças e adolescentes

Superexposição nas e às redes sociais traz risco para crianças e adolescentes
Pais devem atuar como moderadores, não permitindo que os filhos pequenos tenham acesso irrestrito às redes sociais Foto: Pixabay

 

Por ALEX BESSAS

 

“Hoje, dia 3 de agosto de 2021, eu perdi meu filho, uma dor que só quem sente vai entender. E isso é sobre o último post que eu havia feito, os comentários. Ele postou um vídeo no TikTok, uma brincadeira de adolescente com os amigos, e achou que as pessoas fossem achar engraçado. Mas não acharam. Como sempre as pessoas destilando ódio na internet. Como sempre as pessoas deixando comentários maldosos. Meu filho acabou tirando a vida. Eu estou desolada, eu estou acabada, eu estou sem chão”. 

O desabafo da cantora Walkyria Santos, em lamento pela morte do filho dela, Lucas, de 16 anos, encontrado sem vida na casa da mãe, gerou comoção nacional e voltou a pôr em relevo o debate sobre os riscos da exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais. “Estou aqui como uma mãe pedindo para que vocês vigiem e fiquem alerta. Eu fiz o que pude. Ele já tinha mostrado sinais, eu já tinha levado a psicólogo... Mas foi isso. Foram só os comentários na internet (...) que fizeram que ele chegasse a esse ponto”, alertou a estrela do forró, que completou: “Que Deus conforte o coração da minha família, e que vocês vigiem (porque) a internet está doente”. 

Na avaliação da educadora parental Fernanda Teles, o episódio é a evidência mais extrema de uma tragédia silenciosa, que está em curso e está relacionada ao acesso imoderado e não mediado de crianças e adolescentes à internet. Ela sinaliza que cabe a pais, tutores e sociedade como um todo garantir a proteção desses meninos e meninas. 

“Já fui atacada várias vezes e já recebi comentários bem cruéis”, relata Fernanda em uma publicação em seu perfil no Instagram em que reflete sobre efeitos da própria presença nas redes sociais. Mas, apesar de reconhecer que, às vezes, fica chateada, ela lembra que, sendo uma mulher adulta, possui recursos emocionais para lidar com essas reações de agressividade. Já as crianças e os adolescentes, por outro lado, estão em processo de formação e, portanto, são mais frágeis emocionalmente. Piora esse quadro o fato de muitos estarem sendo criados em uma lógica muito atrelada às relações estabelecidas na virtualidade, o que faz deles “dependentes da opinião dos outros nesse sistema binário que vivemos, da punição de dia e do elogio à noite”, situa a especialista.  

Fernanda ainda lembra que, para além dos problemas associados às interações digitais, um sem-número de jovens vive em lares de vínculos frágeis e muita violência, com gritos, castigos e punições. Tudo isso sob o pretexto de educação. Com efeito, essas crianças e adolescentes têm sua autoestima abalada, ficando ainda mais vulneráveis à aprovação e à desaprovação de desconhecidos nas mídias sociais. Assim, “vão construindo sua personalidade a partir dos feedbacks da crueldade e de alguém sem o menor direito de fazê-lo, que se fortalece na invisibilidade que as telas promovem”, descreve Fernanda. 

Bajulação 

No Brasil, antes da tragédia envolvendo a família de Walkyria, o debate sobre como os pais podem atuar como mediadores do contato de seus filhos com as redes já estava aquecido, pelo menos, desde que a médica paulista Fernanda Kanner excluiu as contas da filha dela, Nina, de 14 anos, que somava quase 2 milhões de seguidores.  

“Decidi apagar a conta do TikTok e do Instagram dela. Chata, eu sei, mas nossa função como mãe não é ser amiguinha”, escreveu em uma publicação em que, após ser cobrada, justificava o motivo do “sumiço” dos perfis da menina. “O carinho que vocês têm por ela é a coisa mais fofa, mas eu não acho saudável nem para um adulto e muito menos para uma adolescente basear referências de autoconhecimento em feedback virtual. Isso é ilusão, e ilusão mete uma neblina danada na estrada do se encontrar. Eu não quero que ela cresça acreditando que é esse personagem”, criticou. 

Em entrevista à revista “Crescer”, a médica descreveu a sua principal preocupação em relação aos efeitos da midiatização do cotidiano. “O que mais me angustiava era a bajulação. Era muita, muita ‘polição de ego’ o dia inteiro e pouco aprimoramento interno. Não queria jamais que ela acreditasse que beleza era o que ela tinha de mais especial”, informa. “Eu quero que a Nina entenda que o valor dela vem de dentro, e não do que os seguidores atribuíam a ela”, situa. 

Autovigilância 

Gerente de advocacy da Childhood Brasil, entidade que defende os direitos da infância, Itamar Gonçalves indica que é importante não apenas que os pais estejam atentos a interações e hábitos de seus filhos nas mídias digitais como policiem a si próprios. “Quem usa indiscriminadamente as redes sociais pode estimular seu filho a fazer um uso também indiscriminado delas”, relata. 

“É seguro dizer que os usos que fazemos da internet afetam diretamente o processo de educação infantil. Por exemplo, vai soar contraditório, para a criança, escutar de seus pais que há partes do corpo que são privadas, que não devem ser tocadas por outras pessoas ou expostas, se, ao mesmo tempo, ela sabe que seus pais estão postando ou já postaram publicamente fotos dela nua em suas mídias”, reflete Gonçalves. 

Portanto, assim como a presença imoderada de crianças nas redes, a exposição excessiva da imagem delas também pode ser prejudicial e provocar disfunções parentais e familiares. 

O desmedido hábito de publicar imagens dos filhos, aliás, se tornou um fenômeno tão comum que, agora, há um termo que designar essa prática. Trata-se do “sharenting”, expressão em língua inglesa que junta as palavras “share”, que significa “compartilhar”, e “parenting”, que se relaciona à criação de filhos. 

Hiperexposição 

“O ‘sharenting’ pode ser positivo em relação à troca de experiências sobre criação de filhos entre os pais. Pode ajudar um pai de primeira viagem ou outros pais, com dicas de estratégias de resolução de problemas ou ideias de brincadeiras”, pondera a psicóloga e pesquisadora Renata Borja. Mas essa conduta pode também ser nociva. “Um dos maiores problemas refere-se aos riscos a que os pais estão expondo os filhos de eles terem sua identidade roubada por fraudadores e de serem alvo de possíveis sequestradores ou pedófilos”, alerta. 

“Além disso, desencadear brigas e problemas no relacionamento à medida que a criança começa a ter noção de que a imagem dela está sendo exposta ou que foi exposta de uma forma que ela não concorde e desaprove”, informa a estudiosa, inteirando que esse comportamento dos pais pode trazer prejuízos para meninos e meninas no contato com seus pares. Isso porque algumas postagens podem fazer dessas crianças alvos bullying. “Nenhum pai ou mãe tem o controle de como os filhos enfrentarão esse tipo de exposição”, diz.  

“É provável que muitas crianças ao crescerem, interpretem essa atitude dos pais como desrespeito e desatenção para com elas. No caso daquelas que se tornam famosas com essas postagens, poderão surgir problemas associados à fama que essa criança não escolheu para si”, situa Renata. “As que foram muito expostas podem acabar se iludindo com a fama virtual ou até mesmo com as curtidas nas suas postagens. Isso pode torná-las – e tornar os seus pais também – escravos da fama virtual, que pode trazer grandes frustrações, conflitos e sofrimento, além de problemas aditivos”, reflete. 

Na contramão 

Hoje, o “sharenting” é uma prática tão habitual que a não exposição das crianças causa mais estranhamento do que a exposição excessiva. Em 2017, a apresentadora Rafa Brites e o jornalista Felipe Andreoli, por exemplo, precisaram se explicar após serem cobrados por não terem exibido o rosto do filho deles. “Estamos recebendo críticas maldosas por não postarmos o rosto do nosso bebê e por não termos tirado foto na saída da maternidade”, escreveu ela em um post no Instagram. 

Essa pressão é sentida também por anônimos. “As pessoas não chegam a se questionar a nossa posição, mas sabemos que a opção causa espanto e incompreensão”, indicam o cientista da computação I. Lopes, 32, e a contadora T. Barbosa, 30.  

Pais de uma menina que completa 2 anos neste mês, eles explicaram à reportagem o porquê de nunca terem postado fotos da filha em suas redes sociais. “Não queríamos uma superexposição, algo que normalmente vemos em relação a outras crianças. Preferimos preservar a imagem e a privacidade da nossa filha”, defendem. Também pesa na decisão o fato de ser impossível saber o alcance que as imagens podem ter, principalmente quando postadas em perfis abertos ao público. “Não há controle”, criticam. 

“Como a nossa filha ainda não tem capacidade de escolher sozinha se quer aparecer ou não, preferimos optar por não publicar”, dizem. “Hoje, as crianças mal nascem e estão nas redes sociais, mas, para nós, isso não faz sentido. Afinal, as pessoas que realmente se importam com a criança, que querem vê-la, estão sempre por perto, convivendo com ela e, portanto, não precisam que essa relação seja intermediada pelas mídias digitais”, detalham. 

Dicas 

Itamar Gonçalves, da Childhood, indica que a estratégia de saber da criança se ela autoriza que sua imagem seja compartilhada é um filtro interessante a ser adotado pelos pais. “Se for uma criança que já consegue interagir, é importante escutar essa criança para saber se ela se sente confortável. E ela pode demonstrar isso de várias formas, como quando fica inquieta e pede para não ser fotografada”, examina. Já imagens com teor de nudez devem ser evitadas a todo custo. “Essas fotos podem estar alimentando uma rede criminosa de comércio de conteúdos de pedofilia”, assegura. 

A psicóloga Renata Borja lembra ser importante evitar imagens que identifiquem o local que a criança estuda, clube que frequenta, bairro em que mora. “Evite vídeos e fotos que exponham a criança com pouca roupa ou que podem ter conteúdo que possa ser vexatório para a criança. Criança fazendo algo errado, lambuzada, falando errado ou atuando de forma que possa parecer engraçado para adultos pode trazer consequências negativas no futuro”, aconselha.